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A primeira vista, o delírio parece
algo incompreensível e absurdo. Faz parte do conceito habitual,
da idéia mesma de delírio a imagem da incompreensibilidade:
se apresenta como algo que, por definição "não
pode ser compartilhado com ninguém". Em suma, o delírio
parece um descarrilhamento da razão. Na realidade as coisas são
muito diferentes. Vejamos em primeiro lugar alguns problemas de psicologia.
1. Uma pessoa "normal" organiza
seus conhecimentos do mundo em que vive, isto é, possui uma certa
"visão de mundo", ou, em outras palavras, vive seu
próprio conhecimento e teoria da realidade circundante. Em parte
este conhecimento é uma ideologia expressada em conceitos e idéias
sobre o mundo e a sociedade; em parte, e mais simplesmente, é
o modo de orientar-se no mundo, um conjunto de esquemas práticos
de referências, de juízos comparados sobre as coisas e
as pessoas ao nosso redor. O modo prático de ver, de conceber
o mundo em que se vive não é uma teoria geral do universo
e da humanidade: o mundo pessoal da vida é, de maneira mais modesta,
o mundo prático, pessoal, cotidiano de cada um de nós,
que se organiza a partir de lugares familiares, de pessoas, de comportamentos
previsíveis, de pequenos hábitos garantidos.
2. Para viver neste mundo pessoal precisa-se
de uma série de clarezas fundamentais. Uma delas é a clareza
da imagem de mim mesmo, o saber quem se é. Outra clareza necessária
é a distinção entre quem é amigo e quem
não é; outra procede do sentimento de pertencer e ser
aceito, isto é, de um lugar próprio legítimo no
interior do grupo de pessoas amigas (por exemplo, a família ou
o ambiente do café, etc.) ao qual se tem a consciência
de pertencer. Cada um de nós constrói a partir de suas
próprias atividades e costumes uma própria visão
de si mesmo e das coisas, e de si mesmo nas coisas, baseadas na segurança
interior da existência de um mínimo de sentido previsível
dos acontecimentos, isto é, um mínimo de estrutura significativa
da sociedade e do mundo. É com os demais que a própria
visão de mundo é continuamente verificada e corrigida:
a concepção do mundo, o conjunto de valores, de crenças,
os hábitos, os juízos, são sempre, em alguma medida,
concepções compartilhadas por uns poucos, ou por grupos
mais amplos, ou por coletividades inteiras.
3. Cada um de nós entra em contato
com pessoas e lugares novos, com novos acontecimentos, com situações
externas ao âmbito mais restrito representado pela vida cotidiana:
e isto é sempre um risco. Também neste caso a possibilidade
de sustentar uma relação normal entre nós mesmos
e os novos aspectos do mundo exterior implica que este último
tenha sempre, de entrada, ao menos em parte, algo de reconhecível
e familiar. A atribuição ou investidura de familiaridade
com respeito a tudo que vemos ou com que entramos em relação
é algo fundamental e primário, do qual nos damos conta
precisamente porque não existe nenhum momento de nossa vida em
que este sentimento não esteja presente. A partir deste sentimento-base
de familiaridade se constrói pouco a pouco outras certezas; isto
é , o reconhecimento de que toda coisa nova que vemos tem um
sentido; a segurança de que tem um sentido tanto para nós
como para os outros, que tem uma praticidade social.
O que denominamos conhecimento empírico, isto é, conhecimento
e aquisição de coisas novas, é um processo de reconhecimento
baseado na apropriação e classificação das
experiências segundo uma hierarquia constituída por graus
diferentes de familiaridade. Convém insistir no fato de que o
conceito de familiaridade implica sempre a possibilidade de uma relação
prática e social com as coisas, isto é, não só
implica um ver e reconhecer, senão que também um tocar,
um fazer, um apropriar-se dos objetos, uma possibilidade de faze-los
entrar no circuito de intercâmbios sociais, significativos e úteis.
O reconhecimento de uma pessoa, de um lugar ou de um objeto, ou de uma
situação determinada, pode ser também um reconhecimento
parcial. Por exemplo, podemos ver uma pessoa e não reconhece-la
com nome e sobrenome, nem com rosto e expressão; podemos até
não tê-la visto nunca, porém sempre reconhecemos
em alguma medida o fato, ou a hipótese, de que esta pessoa é
algo mais ou menos parecida com nós mesmos. Se pretendemos ter
uma relação com esta pessoa, a investidura de familiaridade
ainda é maior, se estrutura em expectativas, desejos e hipóteses;
tal pessoa fala provavelmente a mesma língua, possui algumas
características em sua expressão ou em seu modo de vestir
pela qual podemos, ao menos minimamente, classifica-la em nosso mundo
e prever suas reações, de modo que resulta possível
planificar com ela uma relação social concreta. Também
uma relação com objetos e ambientes novos é necessariamente
uma relação com objetos já dotados de um mínimo
de significado familiar, de um conteúdo humano, de uma frutibilidade
social em certo modo já assegurada.
Cabe discutir se os fatos sempre justificam um mecanismo psicológico
parecido de confirmação; isto é se esta confiança
a priori sempre é correspondida e se o mundo em que vivemos nos
oferece verdadeiramente uma garantia de segurança e de compreensibilidade.
Como é óbvio, qualquer interpretação da
realidade é convencional: porém todas as interpretações,
no fundo, tendem a negar a presença e a incontrolabilidade das
ameaças reais, tendem a pré-construir a confiança.
Na realidade, o universo das relações sociais é
concretamente ameaçador, menos compreensível e sobretudo
menos dominável praticamente, e inclusive menos previsível,
do que todos estão dispostos a admitir. Construir-se em mecanismos
de familiaridades, recortar-se em ambientes de afirmação
recíproca, afirmar-se com a ideologia das coisas conhecidas,
constitui em grande parte em convenções, porém
também em ficções. Existe algo de não realista
no "sadio" realismo do "bom senso comum". Em nossa
sociedade, a racionalidade corrente domina estes mecanismos de afiançamento,
e se vale deles para manter imutável a estrutura social.
4. O reconhecimento se produz em grande
parte como reconhecimento de nossas sensações experimentadas
naquela situação. Se tais sensações nos
são conhecidas, construímos e antecipamos uma imagem de
nós mesmos naquela situação: esta imagem nos é
familiar porque está construída com sensações,
sentimentos e pensamentos que já experimentamos em situações
semelhantes. A continuidade no tempo de nossa pessoa, a estabilidade
de nossa imagem, são garantias de continuidade no que se refere
ao encontro com pessoas, coisas e situações novas. A familiaridade
que experimentamos ao nos aproximarmos de um objeto ou de uma pessoa
não é mais do que a familiaridade que sentimos pela continuidade
da imagem que temos de nós mesmos e pelo conhecido sentido de
nossas experiências anteriores, que - prevemos - se repetirão,
da mesma forma que no passado.
Assim pois, antes de reconhecer coisas e pessoas, reconhecemos uma continuidade
e um sentido em nós mesmos e em nossas situações
vividas. Este reconhecimento é um dos fundamentos do sentido
de identidade, da imagem de si mesmo. A imagem que temos de nosso corpo,
de nossa personalidade individual, de nossa colocação
social. Não é algo que construímos por nós
mesmos, mas algo que os outros constróem para nós. Nos
reconhecemos pelo que somos através do modo como os outros nos
reconhecem, e através do reconhecer-se como afim aos demais que
reconhecemos.
O Nascimento do Delírio
O delírio nasce e é compreensível
a partir de um insuficiente controle do mundo real e de uma insuficiente
clareza sobre a própria identidade no mundo real. No delírio
a situação "nova" é realmente nova porque
não se refere a nada dominável nem suficientemente familiar:
quem começa a delirar consigo mesmo, não se reconhece
a si mesmo na situação, e não reconhece nem domina
plenamente a situação. Não pode construir uma hierarquia
dos reconhecimentos, seja porque o que tem diante de si não é
absolutamente previsível: as coisas já não se organizam
espontaneamente segundo um sentido humano e doméstico; as informações
já não podem ser selecionadas pelo indivíduo. O
que lhe sucede não é coerente com sua experiência
e com seu mundo comum. As coisas são estranhas e, por conseguinte,
desumanizadas e as pessoas são incompreensíveis. Não
é necessário que em seu organismo exista nada substancialmente
enfermo para que isto ocorra: é suficiente, por exemplo, que
uma pessoa - por motivos sociais - esteja afastada dos demais, excluída,
marginalizada dos auto-afiançamentos cotidianos dos demais membros
de seu grupo, invalidada em suas próprias seguranças;
ou então que esteja dominada por uma realidade tão nova
e ameaçadora que não consiga domina-la.
A situação da doença tipo psiquiátrica é
considerada, em geral, como uma crise existencial que está "escapando"
ao sujeito. Então ele tem a precisa sensação de
não controlar o que lhe ocorre: perde o controle ativo dos acontecimentos.
Assim, pois, afirma facilmente: "tenho a sensação
de não estar", "tudo se organiza fora de mim, porém
não entendo como", "não entendo e me sinto culpado
por não entender". Aqui se capta uma possível gênese
da experiência delirante.
O delírio não se deve a interpretação alterada
de um aspecto da realidade, mas sim a uma situação de
dificuldade na compreensão das relações entre si
mesmo e os aspectos significativos da realidade. O que se tem perdido
é, sobretudo, uma estrutura, socialmente co-dividida, das relações
entre si mesmo e as demais pessoas. Na maioria dos casos a perda desta
"estrutura significativa" vai unida a dois fatores.
O primeiro é a experiência de passividade, isto é,
a sensação de estar dominado pela realidade; isto significa
sentir que não se consegue determinar a realidade externa mas
que se está sendo determinado por ela. O indivíduo tem
então a sensação precisa de ser influenciado. Se
produz, assim, a inversão do modo habitual e normal de referir-se
ao ambiente. Normalmente quando uma pessoa entra em um lugar novo, o
explora com a mente, o invade com o olhar e o pensamento, o reconstrói
em seu interior, o faz doméstico, se apropria para poder manipula-lo
e utilizar de algum modo; se isto não é possível,
o lugar novo é que assusta, domina, influi e invade o indivíduo.
O segundo fator é a situação e a experiência
de isolamento. Antes de começar a delirar, quando começa
a delirar e quando delira, o indivíduo está isolado da
possibilidade de verificar com os demais a existência de esquemas
e critérios comuns de interpretação da realidade:
isto é, esquemas e critérios que pertençam tanto
a ele como a seu ambiente familiar e social. A sensação
de falta de familiaridade expressa então um fato real: o que
delira já não tem uma interpretação social
comum da realidade, mas unicamente uma interpretação privada.
Quem delira está encerrado em seu mundo. Quem delira - e porque
delira - está, além disso, estigmatizado, isolado e passivizado
por parte dos demais, e por conseguinte obrigado a delirar cada vez
mais. A experiência de passividade e a experiência de isolamento
se reforçam mutuamente: o que se sente passivizado pelos acontecimentos
e na situação em que se encontra, tende a estar isolado
dos outros e a isolar-se da realidade; o que está em situação
de isolamento tende a sentir-se passivizado, influenciado, ameaçado
e impotente com relação aos acontecimentos. A isto se
acrescenta uma inevitável situação psicológica
de ansiedade, de insegurança, de ameaça, de grave frustração,
de dificuldade de adaptação, que reforça o caráter
delirante da experiência do mundo ambiente.
O Delírio como
Explicação
O delírio como interpretação
do mundo nasce no momento em que o indivíduo busca mensagens,
símbolos, uma chave que lhe explique quem é ele e que
mundo é esse, o que está sucedendo realmente, como pode
entrar neste mundo que o domina mas do qual é excluído
e sobre o qual não tem nenhum poder. O indivíduo tenta
reconstruir uma realidade que se vai desintegrando parcialmente ante
seus olhos e que lhe invade em uma série de fragmentos de experiência,
separados entre si e já não plenamente significativos.
O mundo se lhe parece como insuportavelmente estranho, hostil, ameaçador,
falso e desestruturado. A restruturação da realidade parte
de uma intuição de significado em torno da qual todo o
mundo se reorganiza e volta a funcionar. A explicação
(delirante) volta a por em marcha uma existência que estava bloqueada,
na passividade, na perda do sentido das coisas. Subitamente o indivíduo
intui: está invadido por forças estranhas, acontece alguma
coisa, existe um complô; existe algo que se esconde dele, porém
ele começa a entender, descobre significados novos e cifrados.
É o delírio. Neste caso, o delírio tem importantes
afinidades psicológicas com a conversão religiosa, com
a iluminação poética, e também com a percepção
alterada induzida por alucinógenos. (Cabe observar de passagem
que, em ocasiões, a conversão a uma seita protege o indivíduo
do delírio, oferecendo-lhe uma interpretação do
real similar ao delírio porém, sobretudo, socialmente
compartida por todo um grupo cultural).
Para o indivíduo, o mundo externo não tem absolutamente
sentido nenhum ou é um enigma a resolver. Já que todo
o sentido do mundo tornou-se obscuro, só pode ser interpretado
entendendo seus símbolos. Acontecimentos casuais, duas pessoas
que conversam entre si, uma frase da televisão, lhe ameaçam
e lhe invadem, porém ao mesmo tempo penetram em seu corpo e em
sua mente, estão em seu interior, lhe pertencem, constituem uma
mensagem, estão ali para ele.
A Dignidade do Delírio
O delírio é mais uma crença
que uma convicção, mais uma fé que uma certeza,
mais uma necessidade psicológica, desesperada e vital, do que
o conhecimento tranqüilo de um fato imaginário. O delírio
é tensão, desejo, carga afetiva. Sua impermeabilidade
a discussão e a evidência não advém tanto
de seu caráter arraigado e definitivo, mas do fato de que para
seu autor e protagonista é uma questão de vida ou morte.
O delírio não define unicamente uma maneira de interpretar
a estrutura geral do mundo externo, mas sim que também define
a figura e a dignidade do sujeito delirante: este último se determina
e confirma sua identidade através da própria visão
do mundo e defendendo as coisas em que acredita. Isto serve para muitos
jovens esquizofrênicos, que encontram em seus delírios
- às vezes pela primeira vez na vida - a possibilidade de construir
uma visão dos fatos e uma razão para existir, diferente
da dos seus pais; serve para todos os delírios crônicos,
que são a busca e afirmação de uma real dignidade
humana, de uma batalha pelos próprios direitos.
Porém muitas vezes o delírio também define o seu
protagonista de uma maneira muito mais direta e específica por
seu conteúdo. O conteúdo da idéia delirante é
a descrição metafórica da situação
psicológica do delirante e de suas relações interpessoais.
Não é raro, por exemplo, que o delírio de perseguição
indique, em termos de representação dramática,
uma sutil e real perseguição psicológica por parte
dos familiares; ou que as idéias de envenenamento expressem com
singular exatidão a atitude psicológica invalidante e
destrutiva de outro membro da família que é designado
como "o que coloca veneno na comida".
Nem sempre é possível entender se o delírio expressa
uma convicção de realidade, e até que ponto expressa,
por outro lado, um "como se", ou uma mensagem, um pedido de
ajuda. O delírio é utilizado muitas vezes pelo delirante.
Em algumas ocasiões o delírio é uma autêntica
"cortina de fumaça" que o psicótico estende
diante de si para ocultar seus autênticos pensamentos, sua confusão
e sua angústia. Se observa com muita freqüência que
nos momentos de frustração e dificuldade os delirantes
crônicos recorrem a seus temas, evocam delírios enterrados,
e se defendem escondendo-se neles, da dureza da realidade prática.
De uma maneira geral fica claro de tudo que dissemos que o delírio
é uma defesa, e às vezes inclusive, uma defesa eficaz:
impede a desagregação psicótica, permite viver,
atribuir uma ordem às coisas, suportar uma situação
insustentável. Por isso é equivocado colocar-se de maneira
restritiva o problema da "terapia do delírio": a terapia
consiste em por o indivíduo em uma situação em
que já não precise delirar.
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Texto extraído de: Jervis, Giovanni - Manual Crítico de
Psiquiatria, Anagrama, Barcelona, 1977.
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